domingo, 18 de junho de 2017

Carta 005 - aquela do dia a dia

Oi, Fer!

Desde que me lembro, sempre fui apontada como a filha da mãe solteira. Sempre. Ouvia vizinhos falando, pais de colegas, professores e até dentro da minha família. Lembro que, no começo, eu achava que minha mãe tinha alguma doença. Eu não conseguia entender por que as pessoas se referiam a mim daquela maneira. E mais: por que as pessoas chamavam a minha mãe de mãe solteira. Eu sei que esse foi um estigma que ela carregou a vida toda. E hoje eu ainda sinto uma dor por fazer parte da culpa por ela ter sido chamada assim. 

Felizmente a sociedade mudou um pouco (mas não muito). Já sabemos que não podemos ligar o estado civil da mulher ao seu novo atributo: mãe. Quem é mãe é mãe. Não interessa se é solteira, casada, separada, divorciada, viúva. Quem ainda fala mãe solteira em 2017 é uma besta anacrônica.

Eu sigo fazendo tudo o que tu precisa, desde as necessidades básicas até momentos de diversão. Passamos ótimos momentos juntos. Temos nossas divergências, claro, tudo faz parte. Educar não é fácil. Educar é dar limites. Receber limites é chato, principalmente quando não se entende ainda muito o porquê das coisas. Mas seguimos aqui juntos nessa longa, divertida e, por vezes, árdua caminhada.

Mas preciso admitir só um pouquinho, bem baixinho, às vezes até no chuveiro quando tu não escuta, que: mamãe às vezes fica cansada.

Estou contigo e sempre estive para o que der e vier. Entretanto, agora, oficialmente, tenho um novo atributo. 

Eis-me aqui: Mariáh, mãe solo. 

Mariáh mãe solo acorda 6h30, toma banho, veste-se, acorda Fernando, veste Fernando, ajuda-o a escovar os dentes, faz um Toddy para ser tomado no carro, pega uma caneca de café, desce quatro andares com Fernando reclamando que o prédio não tem elevador, torce para que a bateria do carro ainda tenha vida, liga o carro, vai até o portão, larga o lixo (às vezes esquece de largar o lixo e leva pro trabalho), dirige até o colégio, deixa o Fernando na aula e pede desculpas para a professora por esquecer novamente de levar a Sacola da Solidariedade. Desce dois andares, vai até seu armário, pega a bolsa com os cadernos de chamada e os livros, vai para a fila, pega a turma, sobe pra sala, dá três períodos de aula, sempre fazendo piadas e tentando animar a turma, mas sem conversa porque de ruídos já basta o trânsito, desce pro recreio, toma um café enquanto atualiza o Twitter, pega a turma, sobe pra sala, mais dois períodos, desce com a turma, almoça um salgado enquanto corrige provas ou prepara um aula, 13h15 pega a turma, sobe, dá aula até às 16h, vai pro recreio, sala dos professores, pega a turma, dá aula até 17h30, quando pega o Fernando com a professora, torcendo pra ele ter sido um bom menino o dia todo. Passa no mercado, compra o básico, chega no caixa e torce para ficar tudo bem com o saldo da conta e o valor das compras. Volta para casa, vê a agenda no estacionamento, porque não leva mais a mochila cheia de coisa por quatro andares - só se tiver temas. Chega no apartamento, confere se a fome do Fer tá pouca ou muita, deixa no banho e orienta as etapas enquanto faz janta. Tira do banho, orienta o jantar, deixa ver desenho enquanto lava a louça/coloca a roupa pra lavar/varre a casa/guarda a bagunça/reclama no Twitter/toma uma taça de vinho/grava um snap, pega Fernando, lê O pequeno príncipe, Fernando dorme. Mariáh levanta, toma banho (às vezes não), faz o que precisa para o dia seguinte, coloca uma série para ver e, com dois minutos, dorme. E se, no meio disso tudo, alguém quiser marcar uma aula particular, tirar uma dúvida ou pedir ajuda num artigo, ela diz prontamente que sim.

Sou feliz? Sou. Faria tudo de novo para chegar onde estou? Faria. Choro de desespero às vezes? Choro. Preciso de ajuda? Muita.

Felizmente, existe uma rede de pessoas que me ajudam quando essa louca rotina dá tilt. Felizmente, existem pessoas perto da gente que lembram que a mamãe também precisa ser mulher. Tem a vó Carmen e as tias Nena e Popo que se quebram vindo de Torres para ficar contigo enquanto a mamãe vai pro Retiro do Marista. Tem o Ralph e a Odessa que te pegam no colégio quando eu tenho reunião no exato momento em que deveria estar te pegando na aula. Tem a Carina, que eu confio tanto, e que fica contigo aqui em casa quando está todo mundo em reunião. Tem a Rosana e a Cadine que ficam contigo sempre sorrindo. Tem a Tia Ruth que me ajuda milhares de vezes. Tem a Myrian, a Mari, todo o terceirão de 2016 e estudantes do Marista e Cesi que ficam contigo quando eu estou atendendo pais ou em reunião. Tem a Ana, que nos chama pra almoçar no sábado, quando a vontade é só de dormir. Tem a Bruna que sempre dá um jeito de fazer algum programa cultural que quebre essa rotina. Tem a Gabriela que é onde eu durmo nas 30h que fico longe de ti a cada 15 dias, se o trabalho não for mais importante. Tem a Luana que quer que a gente sempre vá pro sítio no final de semana. Tem a Fran, Kika, a Dinda Lu, a Vanessa e mais uma dezena de pessoas que eu alugo e envolvo nos meus dramas. Temos gente, filho. E por isso todo dia eu acordo e sigo nessa correria louca. Porque tu é muito importante pra mim, porque faço tudo pensando no teu bem estar e porque temos gente.

Essa não é uma carta de reclamação. É uma carta de agradecimento. Espero que tu consiga discernir isso no futuro, pois tenho certeza que muito adulto que lerá hoje terá dificuldade de saber a diferença.

Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim, que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo; repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada. (Caio Fernando Abreu)

Amo-te!

Com carinho,

Mamãe.





sábado, 3 de junho de 2017

Carta 004 - aquela em que precisamos aprender algo


Oi, Fer!

Desde o começo da semana, tu tava me pedindo para que eu te ensinasse a ler. Eu não esperava por isso, mas confesso que fiquei orgulhosa pela tua iniciativa. Tu "precisava" muito aprender para ler para os colegas na sexta, dia do brinquedo, porque queria levar um livro. Mas acabou levando um quadrinho para escrever e uma caneta. Tu me contou que foi divertido.

De noite, quando chegamos em casa, resolvi perguntar se tu ainda queria aprender, já que estávamos com mais tempo. Tu disse que sim e arrumei tudo para a aula. Relembrei contigo as vogais, que tu já sabe há algum tempo, depois falei das consoantes, como são os sons produzidos por elas, e, por último, comecei a juntar consoantes com vogais, e tu repetindo tudo comigo.

Aí resolvi arriscar escrevendo uma palavra com aquelas sílabas que estavam ali. Juntei DA e DO, escrevi DADO e perguntei se tu conseguia ler aquilo.

(Mais tarde, a Carlucci disse que eu deveria ter sido mais criativa na primeira palavra. Mas, sei lá, foi tão natural nossa conexão professora/estudante que não me liguei nesse ponto.)

Para a minha surpresa, tu leu em alto e bom som: DADO. Eu fiquei chocada, ainda bem que tem vídeo, porque o momento foi lindo demais.

Logo depois eu já comecei a escrever outras palavras e perguntar novamente. Aí tu me olhou e disse "Mamãe, posso assistir Turma da Mônica?". Senti um corte abrupto naquela emoção que tinha tomado conta de mim. E tu se foi para a frente do computador. E isso me levou a uma baita reflexão, como sempre.

Por mais que nós queiramos alguma coisa e tenhamos certeza que aquilo é o melhor pra gente, que é daquilo que precisamos, às vezes não estamos prontos para a situação. Às vezes o que almejamos acontece em um momento em que não estamos preparados para lidar com tudo.

Pode ser que num futuro próximo tu queira tentar de novo. Eu estarei aqui para isso. Mas também pode ser que tu aguente esperar o tempo das aulas no colégio. Isso vai depender somente de ti e das tuas urgências.

Na vida, eu acho que, muitas vezes, eu quero que tudo aconteça rápido, no momento em que eu decido. E, mesmo sabendo que isso pode não acabar bem, eu vou lá e faço. É um ato de agir sabendo que pode (e vai) dar errado. Não sei por que eu faço isso, meu filho. Mas tô tentando aprender a ser menos assim.

Quando eu vejo tu fazendo algo similar, na proporção de teus anseios, eu só penso que preciso aprender a ter mais paciência e sabedoria para poder te ensinar a lidar com isso no futuro.

Um beijo de uma mamãe muito orgulhosa, amo-te!

Mariah








Carta 020 - aquela sobre as pessoas que influenciam o meu filho

Ao som de Marcelo D2 - Loadeando Oi, Fer! Começo essa carta pedindo desculpas. Desculpa, filho. Sou mãe, mãe erra também. Eu ainda ...