domingo, 21 de outubro de 2018

Carta 020 - aquela sobre as pessoas que influenciam o meu filho

Oi, Fer!

Começo essa carta pedindo desculpas.

Desculpa, filho. Sou mãe, mãe erra também.

Eu ainda não errei sobre o que estou me desculpando. Mas esse dia vai chegar. E pode ser que neste dia eu não consiga ver o que consigo ver agora. Então, de antemão, eu peço desculpa.

Vai chegar um dia que tu vai me dizer alguma coisa, ou tu vai ter alguma atitude, que eu não vou reconhecer como sendo genuína tua. Em algum momento, a gente não vai mais ser 100% cúmplices como acontece agora. A gente vai acabar se afastando e tu vai ter os teus segredos, vai ter uma vida além da vida mãe&filho que temos. C'est La Vie.
 
Em um belo dia aparentemente normal, tu vai fazer algo que me faça pensar que não poderá ser tu que pensou em dizer ou fazer aquilo. Eu vou achar que tem alguém te influenciando. E, por isso, meu filho, eu quero te pedir desculpa.

Eu quero te pedir desculpas por não lembrar que a gente cria filhos para conseguirem discernir o bem do mal e não está pronto pro dia em que os filhos não repitam as nossas opiniões.

Peço-te desculpas por não ter percebido que o teu exterior provavelmente estará refletindo os teus pensamentos.

Perdoa a mãe, filho, eu poderei não reconhecer o fato de tu conseguir expor tuas opiniões sem medo de estar divergindo de mim. E isso é muito legal.

Filho, a mãe está te criando hoje ensinando que tu tem que respeitar as pessoas, independente de qualquer coisa. Eu te ensino que se há uma situação clara de injustiça acontecendo na tua frente, tu deve interferir para que acabe. Falo todos os dias que ninguém é melhor do que ninguém. Que tu tem que estudar pra conquistar o teu espaço na sociedade. Que tu deve, na medida do possível, esperar a raiva passar pra depois tomar alguma decisão. Se as tuas decisões futuras vierem a partir disso que eu te falo hoje, vai em frente. Mesmo que eu ache que isso não é um pensamento teu. Mesmo que a Mariáh do futuro tenha medo de que tu possa errar e não te apoie. A Mariáh de 2018 prefere que tu erre, se achar que tá acertando, do que tenha medo de tentar. 

Eu te amo, tenho orgulho de ti. E mesmo que tudo mude, eu sempre terei orgulho da criança que eu estou criando.

Com carinho,

Mamãe.


quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Carta 019 - aquela sobre o Brasil

Bom dia, filho!

Este é o ano eleitoral em que mais temo pelo nosso futuro. E quando digo isso não é só o meu e o teu. É o futuro dos brasileiros. 

Demorou muito tempo pra mamãe entender-se enquanto mulher. Quando eu era mais nova, muitas pessoas me diziam coisas que eu não podia fazer. 
Mulher não pode sair com essa roupa na rua, porque senão vai estar praticamente obrigando os homens a assediarem. 
Mulher tem que saber cuidar de uma casa, senão ninguém vai querer casar contigo.
Mulher não pode beber muito, porque senão é promíscua.
Mulher tem que esperar o homem tomar a iniciativa, senão vai ser considerada fácil. 
Mulher não pode isso, aquilo e mais aquele outro.
Mas, desde muito cedo, eu sempre fiz tudo o que eu quis. Ah, mulher não pode isso? Então olha só euzinha aqui fazendo. Nunca me deixei limitar. Isso me custou muitas coisas. Sempre fui julgada por muitos. Entretanto, por tantos outros, servi de exemplo de força, de superação. Quando me tornei mãe, comprei novas batalhas: desde a entrada no mercado de trabalho com filho pequeno pra criar até o orgulho de conseguir ser mãe e mulher ao mesmo tempo (e ter que brigar para entenderem que uma não descarta a outra e elas precisam ter direitos e deveres respeitados).

Vivi em um Brasil que humilhou e rejeitou homossexuais por décadas. Na universidade conheci tanta gente, tanta cultura, tanta diversidade, que um novo mundo se abriu pra mim. E passei a lutar por isso também. Pelo direito do outro existir com a orientação sexual que tiver. Por muito tempo, todos LGBT+ eram marginalizados pela sociedade. Ainda hoje, infelizmente, são. Mas o número de pessoas que diariamente se assume pra si é gigante. E espero que mais e mais pessoas sintam-se bem pela maneira que são, que nada nos limite, que nada nos discrimine. Luto por um dia em que não existam mais pais que mandem seus filhos embora de casa, porque são gays ou um dia em que a cura gay seja tão absurda quanto o histerismo feminino do século XIX.

Um dia quero estar dentro de um colégio em que o corpo docente seja composto pela mais diversas etnias e não só por brancos, privilegiados de tantas maneiras ao longo das décadas. Quero que todos tenham as mesmas oportunidades, que os estudantes consigam alcançar o que almejam, que entrem nas universidades que queiram e que escrevam suas histórias de vida como desejam. Quero ver filho de trabalhador conquistando o mundo. Quero ver filho de rico lutando para que as diferenças sociais sejam diminuídas. Quero que ninguém seja julgado pela cor da pele, que sua etnia/origem não defina se você gosta ou não de trabalhar, se você é capaz ou não. Ainda existe muito racismo no Brasil, filho. Mas sabe que tu, no auge dos teus sete aninhos, sabe que não existe lápis cor de pele? Tu explica pra todo mundo que é salmão o nome daquela cor e que existem diversos tons de pele, então não pode ser aquele lápis que é cor da pele

No futuro, quero que as pessoas não peçam pela volta da ditadura militar, que os Amarildos e Marielles consigam voltar pras suas famílias ao fim do dia, que os órgãos responsáveis por garantir a segurança da população causem orgulho e não medo, temor. Quero que as pessoas conheçam bem a história do nosso país e tenham lucidez para que não repitamos nossos erros enquanto sociedade. Desejo estar num lugar em que os cidadãos entendam que não se pode fazer justiça com as próprias mãos, que armar as pessoas não fará com que estejamos protegidos. Que o número de crianças que morrem pelo uso das armas de fogo dos seus pais não volte a crescer.

Hoje, filho, estamos em meio ao caos social. E, nesses momentos, é propício que surjam pessoas radicais que propaguem que se a sociedade voltar a ser conservadora, a violência irá diminuir, a crise irá acabar. 

Mas não, meu filho, nenhuma mulher vai voltar pra cozinha e sair do mercado de trabalho. Nenhuma mulher vai deixar de ser o que ela quiser, porque ela tem filhos. Nenhuma mulher vai tolerar mais que seja chamada de monstro por não querer casar e/ou ter filhos. Nenhuma mulher vai mais ser assediada, porque ela pediu. Nenhum gay vai voltar pro armário. A porta do armário não só foi aberta como foi destruída. Ninguém vai mais apanhar na rua e se esconder em casa. Ninguém mais vai ser discriminado e se esconder em quilombos. Não iremos nos calar. #EleNão vai passar. 

Com todo meu amor e esperança deste mundo,

Mamãe.


segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Carta 018 - aquela do sétimo ano de vida


Meu querido filho!

Hoje tu completa sete anos de vida. Eu não consigo nem pensar direito tanta coisa que passamos juntos. 

Lembro como se fosse hoje, era sábado, dia 17 de setembro de 2011, eu acordei cedo, porque tinha ensaio. Teria, não fui. Vinte e cinco longas horas depois, eu estava com minha bolotinha de amor no colo. 
Além da minha cara de acabada, consigo ver muito medo. Lembro que a enfermeira estava te mexendo um pouco antes dessa foto, tu estava perto dos meus pés e eu pensei SASINHORA ESSE BEBÊ É MEU! E durou sei lá, uns três segundos e já te peguei DÁQUI MEU GAROTINHO, MOÇA! E daí nunca mais te soltei. Uns dois dias depois descobrimos o amarelão, mas pra mim tu sempre será a criança amarela mais linda do mundo!

Depois finalmente fomos pra casa e não desgrudei mais. Toda aquela história vomitada de bebê independente, que não pode ser agarrado, porque senão não sei o que não sei o que lá não funcionou aqui.
Eu adoro o teu aniversário, porque é um marco pra mim também. Não foi quando eu me tornei mãe (isso foi automaticamente quando vi aqueles dois palitinhos no resultado do exame), mas quando eu o peguei pela primeira vez no colo e soube que, a partir dali, eu seria uma pessoa diferente. E ainda assim eu não imaginava o tanto! 

Foi muito difícil nos primeiros dias, no primeiro ano, nos terríveis dois... E foi muito massa nos primeiros dias, no primeiro ano, nos terríveis dois... É uma mistura de sensações, de sentimentos. Nunca tem tédio. Maternidade não é 110 nem 220 volts. Maternidade é queda de disjuntor, meu filho! 

Mas foi a partir do teu nascimento que eu entendi muitas coisas. Foi pra ser uma pessoa melhor pra ti que eu me reinventei. E isso foi acontecendo tão naturalmente... 

E esta é a primeira carta que tu leu enquanto eu escrevi. Estou muito orgulhosa de ti! Sou muito orgulhosa de ti! 

Amo-te, meu filho! Tu é maravilhoso! Tudo de melhor pra ti sempre! Conta comigo!

Com carinho,

Mamãe.




sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Carta 017 - aquela da próxima partida

Oi, Fer!

Parece que foi ontem que chegamos de Florianópolis, meio perdidos, desacostumados com o clima, cheios de esperança e planos. De lá pra cá, cinco anos se passaram. A nossa vida mudou muito. Fomos do oito ao oitenta, numa lenta caminhada, cheia de baixos e altos e baixos. E cá estamos, prontos para uma nova nova jornada.

Em 2013, tu entrou na escolinha como se sempre pertencesse àquele lugar. E de lá passou pra outra e outra e depois entrou no colégio. Estudou no colégio em que eu trabalhava. Depois eu saí e tu seguiu sozinho e agora retorna a estudar na mesma escola em que eu trabalho. Socializou, fez amigos, apanhou, chorou, aprendeu a se defender e respeitar as diferenças. Criou vínculos com professores, que têm amor por ti, mesmo depois de não conviverem mais contigo. E é recíproco. Amou e foi amado por todos os estudantes que dei aula. Aprendeu a fazer contornos e a pintar. Hoje tu sabe ler e escrever. É muito gostosa essa fase da tua curiosidade em ler tudo. Bastão ou cursiva, pouco importa. Lá está Fernando querendo ajuda pra entender o som do x, do z. Tu ainda é a criança mais doce que eu conheço. Em parte, por toda rede de pessoas que trouxemos de outros lugares e das que conhecemos em Viamão e que nos dão assistência. E é uma rede bem grande, Fer. Eu tenho muito orgulho das nossas conquistas interpessoais. E é uma gente que torce por nós, sabe, filho?!

Eu terminei a faculdade, estagiei, consegui emprego (dois empregos!), fui professora de uma parte considerável de Viamão. Amei, desamei, chorei, chorei, chorei, amei novamente, desamei de novo e hoje eu estou em um relacionamento sério comigo  mesma. Estou lúcida, plena e feliz. Perdida cheguei, empoderada saio. Fiz três concursos, passei em dois. Comecei a dar aulas em Canoas quatro vezes por semana no começo deste ano. Em Viamão, pedi pra ir pro final da fila. Trabalho em três escolas atualmente.

Nossa família tomou novos rumos. Para melhor. Dividimo-nos e conquistamos mais amor, mais paz, mais harmonia. Tu tem uma nova configuração familiar e nos adaptamos a isso. 

Foram cinco anos de muito aprendizado, filho. Pra nós dois. Não foi fácil, mas sobrevivemos. Lançamos um livro da nossa história. Literalmente. Sobrevivemos e estamos lindos. Estamos no nosso melhor momento, prontos pra novos desafios e aventuras.

Viamão seguirá conosco por conta das nossas pessoas, a nossa rede de amigos que estão sempre por perto torcendo por nós. Mas agora entramos numa nova fase. E que Canoas se prepare, porque estamos fixando residência!

Amo-te muito, meu companheirinho! 

Com carinho,

Mamãe.

*Ela partiu e volta todas as quintas para dar aulas de Literatura, paixão que é impossível de acabar.


domingo, 29 de julho de 2018

Carta 016 - aquela sobre teus seis anos

Querido filho!

Estamos em julho de 2018. Tu tem apenas seis anos.

Tu é uma criança muito carinhosa, que, do nada, vem e abraça, chega e beija, sorri e diz que ama. Quando tu conhece alguém, é sempre expansivo, comunicativo. Tu tem tendência a cativar quem te conhece, nunca passa desapercebido. E tu tem apenas seis anos.

Tu é naturalmente engraçado. Agora que está lendo e escrevendo, tem feito mais fernandices ainda. Hoje fez vários balões de histórias em quadrinhos e vinha me mostrar pra eu ler o que tu queria. Isso com apenas seis anos.

Somos muito companheiros, pois, à medida que a idade permite, explico as coisas pra ti, por que razão tal coisa pode e por que outra não pode. Então, para uma criança de seis anos, tu tem bastante noção da nossa realidade.

Diariamente tem, pelo menos, uma cena de dengo, de manha, um ou dois ah, mamãe, que chato isso! Conversamos muito sobre as birras, inclusive. E depois te dou um tempo para reflexão. Às vezes é rápido, outras nem tanto. E tudo bem, porque tu tem apenas seis anos e tem que aprender a lidar com frustrações - pra ninguém isso é fácil.

No recesso de inverno do colégio, tu ficou uns dias em Torres com a Vó Carmen, Tia Nena e Tia Popo. Eu estava mal do ciático e todos esses dias fiquei praticamente deitada em casa. Fazia tempo que eu não ficava sem ti e acho que faltou pouco pra morrer de saudade. Por tu ter apenas seis anos, não recebi sequer uma ligação nesses dias. Eu que liguei. Liguei todos os dias. Chamadas de vídeo, porque eu precisava ver o teu rostinho. E te ver nesses poucos minutos enchia meu peito de mais saudade, mas eu sei que tu estava bem, estava curtindo os dias por lá, então isso me acalmava.

Tu tem seis anos e faz várias coisas sem a minha ajuda. Não foi fácil conseguir que tu se desprendesse da necessidade de ser ajudado por mim. Mas hoje tu é muito independente tanto em fazer quanto em pensar. Tu é um indivíduo, Fernando. Eu conheço algumas crianças incríveis, mas acho que tu é a mais incrível das que eu conheço. Não é só amor o que eu sinto por ti, filho. É admiração. Ver tu crescer e se desenvolver é um privilégio pra mim. Muito obrigada por tudo, Fer. Amo-te demais!

Com carinho,

Mamãe.


terça-feira, 10 de julho de 2018

Carta 015 - sobre a segunda pessoa mais importante da vida da mamãe


Oi, Fer!

Esses dias eu estava te beijando e te fazendo cócegas, daquele jeito bem mãe ursa, e tivemos o seguinte diálogo:

Mariáh: Tu tem noção que tu é a pessoa mais importante na vida da mamãe?
Fernando: Eu sei, tu já me disse isso.
Mariáh: E quem é a pessoa mais importante da tua vida?
Fernando: Eu, né, mamãe! A vida é minha, eu sou mais importante.

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Desculpe pelo espaço, mas precisei separar uns quatro anos de terapia da tua constatação com seis anos.

Meu filho, tu é demais! É claro que cada um tem que se ter como pessoa mais importante da vida! Até as mães! Principalmente as mães! A gente tem que estar bem, tem que se sentir bem, saber da sua  própria importância para poder transmitir coisas boas. Afinal, a gente não pode transmitir algo que a gente não sente ou não conhece.

Como eu fico orgulhosa dessas coisas que tu diz. Tu parece um padawan, tamanha sabedoria que guarda e de repente emana. A Bruna diz que parece que tu não tem seis anos, que é um anão disfarçado de criança. 

Claro que tu tem teus momentos infantis, próprios da idade, mas as tuas percepções são muito fortes, o tanto que tu consegue tirar de significado das coisas é impressionante.

Tu já sabe escrever e ler várias coisas. Até a professora de inglês já me mandou mensagem te elogiando. Tu é uma criança naturalmente curiosa, tá sempre perguntando sobre tudo e eu respondo, respondo, respondo, respondo, busco resposta e respondo, digo que não sei, nós procuramos juntos (Viva, Google!) e respondemos.

Por diversas vezes enquanto eu estava grávida eu falei sobre como eu queria que tu fosse, imaginava teus gostos, supunha características. Mas o que eu vejo em ti hoje, eu tenho certeza que eu jamais esperei. Tu certamente superou as minhas expectativas. E eu te amo cada vez mais, porque tu é do jeitinho que tu quer ser, tu é do jeitinho que a pessoa mais importante da tua vida deseja ser. E isso me faz muito feliz. 

Isso me  move a me tornar também a pessoa mais importante da minha vida, a lutar pelo que eu acho certo, a querer coisas para a pessoa mais importante da minha vida. Porque só quando essa pessoa estiver bem é que eu poderei fazer coisas para a segunda pessoa mais importante da minha vida: tu, meu querido Fernando.



Um beijo da mamãe muito orgulhosa,

Mariáh


terça-feira, 27 de março de 2018

Carta 014 - aquela sobre tuas percepções


Oi, Fer!

Sabe que, para uma criança de seis anos, tu percebe muita coisa ao teu redor. Às vezes tô conversando com alguém e tu tá entretido jogando Minecraft por perto. Aparentemente, tu tá minerando de boas, mas aí, se um assunto te interessa, lá está o Seu Fernando emitindo opiniões.

Por isso, alguns assuntos escancaradamente impróprios pra tua idade, eu não falo perto nem por códigos enquanto tu esteja com fones de ouvido. Só falo mesmo na tua ausência.

Entretanto, há alguns assuntos que também são pesados, mas relativos à tua vida, e aí eu confesso que me perco um pouco. Às vezes gostaria de sentar contigo e explicar ipsis litteris sobre tudo o que está acontecendo com as nossas vidas. Gostaria de deixar claríssimo por que não podemos fazer certas coisas e por que temos que ter agir de determinada maneira. Queria poder explicar exatamente por que alguns NÃO! enfáticos são necessários. Mas eu sei que tu não teria maturidade emocional para lidar com as respostas.

O problema maior é que tenho muito medo de nunca ter oportunidade de te dar essas respostas. E, se numa dessas adolescências doidivanas, tu não quiser mais as minhas respostas e tirar tuas próprias conclusões?

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É, meu filho, ser mãe não é para amadoras.

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No dia do julgamento maternal*, só espero que tu entenda que eu fiz o melhor que podia com o que tinha. E, a cada decisão que possa parecer equivocada, foi pensando em ti, no teu melhor, em garantir um presente e futuro dignos. Cada decisão que tomo por nós dois é pensando que estou fazendo o melhor.

"Em caso de muita lucidez, loucure-se!"

Amo-te!

Com carinho,

Mamãe.

* Só mais uma carta pra lista de culpa.


terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Carta 013 - aquela sobre quando somos apenas filhos


Querido filho! 

Hoje a vovó Carmen está fazendo 54 anos. Embora não estejamos comemorando juntos, mandamos um presente para que as tias entregassem e fizemos uma vídeo chamada, que é o que a tecnologia atual oferece. E, neste dia, quero falar um pouco sobre nós duas.

Por questões da vida, tive uma adolescência bem típica: dona de mim, odiava o mundo, achava que ninguém era capaz de sentir o que eu sentia. Hoje, pensando nas situações, vejo como fui dura com a vovó em muitos aspectos. E eu só comecei a pensar sobre isso depois que eu virei mãe. 

Há muitas coisas que as pessoas, enquanto somente filhos, não conseguem entender. Por mais inteligência que tu tenha, vai ser preciso ter maturidade e experiência para compreender algumas atitudes e decisões. Fizemos porque era o que achávamos certo. Mas, por muito tempo, tivemos uma relação baseada no conflito. Somente depois do teu nascimento que eu relaxei e passei a entender a minha mãe. E, mesmo assim, às vezes ainda dou uma adolescenteada.

Eu sempre digo que morro de medo que tu chegue na adolescência revoltado comigo, porque eu fui essa pessoa. E hoje eu me arrependo de muitas discussões que só causaram mágoa e levaram anos pra cicatrizar.

Desde essa lucidez sobre a maternidade, minha mãe tem sido presente e fundamental em várias situações. Os últimos anos não foram fáceis. E ela esteve comigo sempre. E segue ao nosso lado sempre.

Por isso, neste dia, resolvi dar para ti este presente: contar que tua avó Carmen merece todos os beijos e abraços que tu conseguir dar. Ela é nosso alicerce, nosso suporte. 

(Mãe, se estiver lendo, espero poder retribuir pelo menos um pouco de tudo o que tu fez/faz por mim e por nós dois. Amo-te.)

Mamãe te ama, sempre torcendo para que o Fernando adolescente ame a mamãe do adolescente também.

Mariáh



Vovó Carmen e tu no teu aniversário de 6 anos.



¹ - A vocalista do The Cranberries, Dolores O'Riordan, faleceu ontem e a mamãe ficou muito triste com a notícia.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Carta 012 - aquela sobre a escolha pelo leve


Oi, Fer!

Tenho buscado apenas coisas leves para as nossas vidas, tentando organizar as coisas para que tenhamos tempo para nós dois, tempo só pra ti, tempo só pra mim, pessoas que tragam coisas boas pra perto da gente, sem carga negativa, sem brigas, sem discussões... No stress, only peace, do you know, man?

Mas uma coisa que eu ainda não consigo evitar é que tudo sempre dá errado para depois dar certo. Só pode ser karma, sabe, filho?! Karma é uma coisa que eu acredito: que todo o bem ou mal que tenhamos feito numa vida virá como consequência boa ou ruim para as próximas. Talvez eu tenha feito coisas que hoje me façam ter obstáculos que parecem inacessíveis. Grande parte, com determinação, eu consigo ultrapassar. Se quando tu tiver lendo isso, tu for muito cético, pensa na Terceira Lei de Newton: para toda ação existe uma reação de força equivalente em sentido contrário. O que também tem a ver um pouco com as reações às ações que praticamos.

Mas voltando ao que não evito: drama! So much drama! Não tem um simples ato na minha vida que seja assim: "Bah, que massa, vou lá fazer", faço e dá certo. Sempre tem uma complicação, sempre tenho que lutar pra conseguir tudo. Eu duvido que seja assim com todas as pessoas. 
[Exceto meus amigos. Meus amigos e eu somos unidos pela desgracera,  por isso todo mundo se ajuda e se entende.] 
Mas eu penso que deve existir gente que não sofra pra tudo. Pra mim é sempre três NÃO até um SIM.

E, nessa busca pelo leve, eventualmente vou deixar pessoas pelo caminho. Mas, hoje, aos 32 anos, eu já abri mão de muita coisa pelos outros, já fiz muito em função de agradar, já entendi que sapos não nasceram para serem engolidos, então eu aceito que às vezes não é pra ser mesmo, que as relações baseadas no conflito não me servem mais. Isso não significa que eu não erre, mas que eu prefiro estar perto de gente que aceite as coisas que não consigo mudar em mim do que as que trazem mais caos ao caos. E as pessoas perto de mim não dizem amém pra tudo que eu penso/digo/faço. Mas elas sabem a hora de afagar e não me cobram o que é pra ser natural. 

Espero que esse começo tão conturbado de dezembro se acalme e nós tenhamos as férias que merecemos. Não sei se conseguirei mudar meu karma, mas a busca pelo leve será primordial.

Mamãe te ama, meu lindo!

Beijo,

Mariáh

P.S.: no último final de semana fomos a Santa Maria. Enquanto eu defendia meu TCC, tu aprendeu a amarrar os tênis. Muito orgulho de ti, meu filho! Jonas foi junto conosco pra mamãe não dormir. Ficamos na Papa House, visitamos o bisa, foi ótimo! É esse leve que quero pra gente. 




terça-feira, 28 de novembro de 2017

Carta 011 - aquela sobre tuas percepções corretas


Querido filho!

"Cartas ao meu bebê", o livro, finalmente chegou nas minhas mãos! Fiquei tão feliz, mas tão feliz, Fernando, que tu não tem ideia. É a realização de um sonho, é a síntese dos últimos anos de nossas vidas. Bem, algo como isso. 

Demorei pra falar sobre esse assunto, mas preciso. Eu juro que não quis ser essa mãe. A mãe da sociedade que mente para que as aparências escondam a verdade. Mas eu fui. Tá lá. Pega o final do livro, as últimas cartas: nas entrelinhas eu consigo perceber algumas incoerências. Mas, né, eu estava focada em não fazer com que tu percebesse as partes ruins da vida. E pode ser que naquela época tenha funcionado. Hoje, aos teus seis anos, não funciona mais.

Esses tempos tive uma conversa séria contigo sobre a nossa situação financeira, que não está fácil, que devemos guardar dinheiro, que não podemos comprar tudo o que queremos o tempo todo, principalmente supérfluos. Dias depois, estávamos passeando no Jardim Botânico e tu estava brincando com um menino embaixo do teatro que tem lá. Chamei para irmos embora e tu me alcançou uma moeda de um Real cheia de terra, explicando que o gurizinho tinha encontrado no chão. Perguntei por que ele não ficou se foi ele que achou. Aí tu me contou que disse pra ele que tua mãe (eu!) estava pobre e precisava.

Essa semana tu voltou do final de semana com teu pai extremamente carinhoso. Deitou comigo pra ver o que eu estava assistindo, ficou me cuidando mesmo. Perguntou quando eu irei namorar. Eu ri. E tu queria ver as fotos dos meus antigos namorados pra achar algum. Deus que me dibre, meu filho. Mas fiquei feliz e tocada com o teu cuidado. E repito: tu tem seis anos. 

Acho que esse negócio de esconder é furada. Vi um filme (Capitão Fantástico) em que o pai falava sempre a verdade aos filhos. Sobre tudo. Sempre. Parece meio louco, mas começo a repensar sobre isso. Esconder não funciona, já que tu pega os detalhes. A honestidade deve ser de fato a melhor saída. 

Desculpa a mamãe por encerrar o "Cartas ao meu bebê" colocando panos quentes. Tentarei ser menos assim. Por respeito a ti e, principalmente, a mim.

Amo-te! Tu é a criança mais legal do mundo inteiro.

Com carinho,

Mamãe. 

Nós e nossos amigos no bate-papo sobre Cartas ao meu Bebê, na Feira do Livro de Viamão


Carta 020 - aquela sobre as pessoas que influenciam o meu filho

Ao som de Marcelo D2 - Loadeando Oi, Fer! Começo essa carta pedindo desculpas. Desculpa, filho. Sou mãe, mãe erra também. Eu ainda ...