quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Carta 019 - aquela sobre o Brasil

Bom dia, filho!

Este é o ano eleitoral em que mais temo pelo nosso futuro. E quando digo isso não é só o meu e o teu. É o futuro dos brasileiros. 

Demorou muito tempo pra mamãe entender-se enquanto mulher. Quando eu era mais nova, muitas pessoas me diziam coisas que eu não podia fazer. 
Mulher não pode sair com essa roupa na rua, porque senão vai estar praticamente obrigando os homens a assediarem. 
Mulher tem que saber cuidar de uma casa, senão ninguém vai querer casar contigo.
Mulher não pode beber muito, porque senão é promíscua.
Mulher tem que esperar o homem tomar a iniciativa, senão vai ser considerada fácil. 
Mulher não pode isso, aquilo e mais aquele outro.
Mas, desde muito cedo, eu sempre fiz tudo o que eu quis. Ah, mulher não pode isso? Então olha só euzinha aqui fazendo. Nunca me deixei limitar. Isso me custou muitas coisas. Sempre fui julgada por muitos. Entretanto, por tantos outros, servi de exemplo de força, de superação. Quando me tornei mãe, comprei novas batalhas: desde a entrada no mercado de trabalho com filho pequeno pra criar até o orgulho de conseguir ser mãe e mulher ao mesmo tempo (e ter que brigar para entenderem que uma não descarta a outra e elas precisam ter direitos e deveres respeitados).

Vivi em um Brasil que humilhou e rejeitou homossexuais por décadas. Na universidade conheci tanta gente, tanta cultura, tanta diversidade, que um novo mundo se abriu pra mim. E passei a lutar por isso também. Pelo direito do outro existir com a orientação sexual que tiver. Por muito tempo, todos LGBT+ eram marginalizados pela sociedade. Ainda hoje, infelizmente, são. Mas o número de pessoas que diariamente se assume pra si é gigante. E espero que mais e mais pessoas sintam-se bem pela maneira que são, que nada nos limite, que nada nos discrimine. Luto por um dia em que não existam mais pais que mandem seus filhos embora de casa, porque são gays ou um dia em que a cura gay seja tão absurda quanto o histerismo feminino do século XIX.

Um dia quero estar dentro de um colégio em que o corpo docente seja composto pela mais diversas etnias e não só por brancos, privilegiados de tantas maneiras ao longo das décadas. Quero que todos tenham as mesmas oportunidades, que os estudantes consigam alcançar o que almejam, que entrem nas universidades que queiram e que escrevam suas histórias de vida como desejam. Quero ver filho de trabalhador conquistando o mundo. Quero ver filho de rico lutando para que as diferenças sociais sejam diminuídas. Quero que ninguém seja julgado pela cor da pele, que sua etnia/origem não defina se você gosta ou não de trabalhar, se você é capaz ou não. Ainda existe muito racismo no Brasil, filho. Mas sabe que tu, no auge dos teus sete aninhos, sabe que não existe lápis cor de pele? Tu explica pra todo mundo que é salmão o nome daquela cor e que existem diversos tons de pele, então não pode ser aquele lápis que é cor da pele

No futuro, quero que as pessoas não peçam pela volta da ditadura militar, que os Amarildos e Marielles consigam voltar pras suas famílias ao fim do dia, que os órgãos responsáveis por garantir a segurança da população causem orgulho e não medo, temor. Quero que as pessoas conheçam bem a história do nosso país e tenham lucidez para que não repitamos nossos erros enquanto sociedade. Desejo estar num lugar em que os cidadãos entendam que não se pode fazer justiça com as próprias mãos, que armar as pessoas não fará com que estejamos protegidos. Que o número de crianças que morrem pelo uso das armas de fogo dos seus pais não volte a crescer.

Hoje, filho, estamos em meio ao caos social. E, nesses momentos, é propício que surjam pessoas radicais que propaguem que se a sociedade voltar a ser conservadora, a violência irá diminuir, a crise irá acabar. 

Mas não, meu filho, nenhuma mulher vai voltar pra cozinha e sair do mercado de trabalho. Nenhuma mulher vai deixar de ser o que ela quiser, porque ela tem filhos. Nenhuma mulher vai tolerar mais que seja chamada de monstro por não querer casar e/ou ter filhos. Nenhuma mulher vai mais ser assediada, porque ela pediu. Nenhum gay vai voltar pro armário. A porta do armário não só foi aberta como foi destruída. Ninguém vai mais apanhar na rua e se esconder em casa. Ninguém mais vai ser discriminado e se esconder em quilombos. Não iremos nos calar. #EleNão vai passar. 

Com todo meu amor e esperança deste mundo,

Mamãe.


segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Carta 018 - aquela do sétimo ano de vida


Meu querido filho!

Hoje tu completa sete anos de vida. Eu não consigo nem pensar direito tanta coisa que passamos juntos. 

Lembro como se fosse hoje, era sábado, dia 17 de setembro de 2011, eu acordei cedo, porque tinha ensaio. Teria, não fui. Vinte e cinco longas horas depois, eu estava com minha bolotinha de amor no colo. 
Além da minha cara de acabada, consigo ver muito medo. Lembro que a enfermeira estava te mexendo um pouco antes dessa foto, tu estava perto dos meus pés e eu pensei SASINHORA ESSE BEBÊ É MEU! E durou sei lá, uns três segundos e já te peguei DÁQUI MEU GAROTINHO, MOÇA! E daí nunca mais te soltei. Uns dois dias depois descobrimos o amarelão, mas pra mim tu sempre será a criança amarela mais linda do mundo!

Depois finalmente fomos pra casa e não desgrudei mais. Toda aquela história vomitada de bebê independente, que não pode ser agarrado, porque senão não sei o que não sei o que lá não funcionou aqui.
Eu adoro o teu aniversário, porque é um marco pra mim também. Não foi quando eu me tornei mãe (isso foi automaticamente quando vi aqueles dois palitinhos no resultado do exame), mas quando eu o peguei pela primeira vez no colo e soube que, a partir dali, eu seria uma pessoa diferente. E ainda assim eu não imaginava o tanto! 

Foi muito difícil nos primeiros dias, no primeiro ano, nos terríveis dois... E foi muito massa nos primeiros dias, no primeiro ano, nos terríveis dois... É uma mistura de sensações, de sentimentos. Nunca tem tédio. Maternidade não é 110 nem 220 volts. Maternidade é queda de disjuntor, meu filho! 

Mas foi a partir do teu nascimento que eu entendi muitas coisas. Foi pra ser uma pessoa melhor pra ti que eu me reinventei. E isso foi acontecendo tão naturalmente... 

E esta é a primeira carta que tu leu enquanto eu escrevi. Estou muito orgulhosa de ti! Sou muito orgulhosa de ti! 

Amo-te, meu filho! Tu é maravilhoso! Tudo de melhor pra ti sempre! Conta comigo!

Com carinho,

Mamãe.




Carta 020 - aquela sobre as pessoas que influenciam o meu filho

Ao som de Marcelo D2 - Loadeando Oi, Fer! Começo essa carta pedindo desculpas. Desculpa, filho. Sou mãe, mãe erra também. Eu ainda ...