Ao som de Everything changes - Soja
Bom dia, filho!
Este é o ano eleitoral em que mais temo pelo nosso futuro. E quando digo isso não é só o meu e o teu. É o futuro dos brasileiros.
Demorou muito tempo pra mamãe entender-se enquanto mulher. Quando eu era mais nova, muitas pessoas me diziam coisas que eu não podia fazer.
Mulher não pode sair com essa roupa na rua, porque senão vai estar praticamente obrigando os homens a assediarem.
Mulher tem que saber cuidar de uma casa, senão ninguém vai querer casar contigo.
Mulher não pode beber muito, porque senão é promíscua.
Mulher tem que esperar o homem tomar a iniciativa, senão vai ser considerada fácil.
Mulher não pode isso, aquilo e mais aquele outro.
Mas, desde muito cedo, eu sempre fiz tudo o que eu quis. Ah, mulher não pode isso? Então olha só euzinha aqui fazendo. Nunca me deixei limitar. Isso me custou muitas coisas. Sempre fui julgada por muitos. Entretanto, por tantos outros, servi de exemplo de força, de superação. Quando me tornei mãe, comprei novas batalhas: desde a entrada no mercado de trabalho com filho pequeno pra criar até o orgulho de conseguir ser mãe e mulher ao mesmo tempo (e ter que brigar para entenderem que uma não descarta a outra e elas precisam ter direitos e deveres respeitados).
Vivi em um Brasil que humilhou e rejeitou homossexuais por décadas. Na universidade conheci tanta gente, tanta cultura, tanta diversidade, que um novo mundo se abriu pra mim. E passei a lutar por isso também. Pelo direito do outro existir com a orientação sexual que tiver. Por muito tempo, todos LGBT+ eram marginalizados pela sociedade. Ainda hoje, infelizmente, são. Mas o número de pessoas que diariamente se assume pra si é gigante. E espero que mais e mais pessoas sintam-se bem pela maneira que são, que nada nos limite, que nada nos discrimine. Luto por um dia em que não existam mais pais que mandem seus filhos embora de casa, porque são gays ou um dia em que a cura gay seja tão absurda quanto o histerismo feminino do século XIX.
Um dia quero estar dentro de um colégio em que o corpo docente seja composto pela mais diversas etnias e não só por brancos, privilegiados de tantas maneiras ao longo das décadas. Quero que todos tenham as mesmas oportunidades, que os estudantes consigam alcançar o que almejam, que entrem nas universidades que queiram e que escrevam suas histórias de vida como desejam. Quero ver filho de trabalhador conquistando o mundo. Quero ver filho de rico lutando para que as diferenças sociais sejam diminuídas. Quero que ninguém seja julgado pela cor da pele, que sua etnia/origem não defina se você gosta ou não de trabalhar, se você é capaz ou não. Ainda existe muito racismo no Brasil, filho. Mas sabe que tu, no auge dos teus sete aninhos, sabe que não existe lápis cor de pele? Tu explica pra todo mundo que é salmão o nome daquela cor e que existem diversos tons de pele, então não pode ser aquele lápis que é cor da pele.
No futuro, quero que as pessoas não peçam pela volta da ditadura militar, que os Amarildos e Marielles consigam voltar pras suas famílias ao fim do dia, que os órgãos responsáveis por garantir a segurança da população causem orgulho e não medo, temor. Quero que as pessoas conheçam bem a história do nosso país e tenham lucidez para que não repitamos nossos erros enquanto sociedade. Desejo estar num lugar em que os cidadãos entendam que não se pode fazer justiça com as próprias mãos, que armar as pessoas não fará com que estejamos protegidos. Que o número de crianças que morrem pelo uso das armas de fogo dos seus pais não volte a crescer.
Hoje, filho, estamos em meio ao caos social. E, nesses momentos, é propício que surjam pessoas radicais que propaguem que se a sociedade voltar a ser conservadora, a violência irá diminuir, a crise irá acabar.
Mas não, meu filho, nenhuma mulher vai voltar pra cozinha e sair do mercado de trabalho. Nenhuma mulher vai deixar de ser o que ela quiser, porque ela tem filhos. Nenhuma mulher vai tolerar mais que seja chamada de monstro por não querer casar e/ou ter filhos. Nenhuma mulher vai mais ser assediada, porque ela pediu. Nenhum gay vai voltar pro armário. A porta do armário não só foi aberta como foi destruída. Ninguém vai mais apanhar na rua e se esconder em casa. Ninguém mais vai ser discriminado e se esconder em quilombos. Não iremos nos calar. #EleNão vai passar.
Com todo meu amor e esperança deste mundo,
Mamãe.




